epifenomenalismo: uma resposta sobre a natureza da mente

Um dos campos mais fascinantes da filosofia, para mim, é a filosofia da mente. Como compatibilizar esse mundo material matematizado e determinado, no qual alguns acreditam (e eu tendo a ser um deles) com a experiência subjetiva?

O que é experiência subjetiva? É perceber-se uma consciência, "atrás" dos próprios olhos, ouvindo uma voz mental enquanto lê este texto, percebendo sons acontecendo ao fundo da sua atenção (carros distantes, talvez um cachorro latindo, ou alguém conversando). É notar cores, figuras, tamanhos, sabores... Entender-se "eu", esse feixe de sensações, raciocínios, crenças, valores, emoções, sentimentos, memórias, desejos, sonhos... essa é uma descrição possível de experiência subjetiva. Podemos dizer também que é essa realidade "interior" a nós, a qual os outros não tem acesso direto.

Chamamos isso de eu, de consciência, de mente, de subjetividade. Em filosofia e psicologia, nem sempre esses termos significam a mesma coisa, mas para efeitos práticos, neste texto significarão.

Existem várias perspectivas a respeito do que a mente é. Dualistas substanciais dirão que nossa mente e nosso corpo são coisas distintas e independentes entre si, mas que se relacionam mutuamente. Fisicalistas identitaristas dirão que mente é só mais uma maneira de dizer "cérebro" ou "sistema nervoso central".

O dualismo tem uma dificuldade: como explicar a relação entre mente e corpo, se, no mundo físico, todos os eventos devem possuir causa também físico? Quero dizer: se decido levantar meu braço, isso possui causas físicas identificáveis no meu sistema nervoso. Mas essa linha de causas e efeitos, se percorro até o início, começa com um evento mental (minha vontade), e não físico. Devo admitir que minha mente tem poder de causar eventos físicos no meu sistema nervoso? Não seria isso um absurdo, um evento físico que não possui causa física?

O fisicalismo identitarista, por sua vez, também tem suas limitações. O problema da experiência subjetiva é o mais famoso: imagine que uma pessoa com deficiência visual desde o nascimento torna-se pesquisadora a respeito da percepção visual. Imagine também que ela descobre, durante a vida, tudo o que há para se saber sobre a visão, deste as leis ópticas que explicam os fenômenos luminosos até o funcionamento minucioso dos olhos e do sistema nervoso envolvido no ato de ver. Para um identitarista, uma vez que ela conhece toda a teoria físico-química a respeito da percepção visual, não haveria nada mais para saber, certo? 

Mas agora considere que essa pesquisadora passa por um procedimento inovador que lhe possibilita começar a enxergar. Pela primeira vez, então, são apresentadas a ela duas maçãs, uma verde e uma vermelha. Ela não pode tocá-las ou sentir delas o aroma, apenas vê-las. Ela conhece perfeitamente bem quais os comprimentos de onda atrelados às tonalidades da cor verde e da cor vermelha, como também sabe dos cones e bastonetes responsáveis pela percepção daquelas cores. Ela saberá qual maçã é qual? Intuitivamente diremos que não, pois lhe falta algo: a experiência subjetiva das cores, que ela só poderá obter em primeira mão, por meio de sua própria visão.

Mas existe uma alternativa a essas perspectivas filosóficas sobre a mente. Uma que nem reduz a mente ao cérebro, nem a considera uma coisa completamente distinta e separada. Chama-se epifenomenalismo.

Esse vertente defende que a mente é um epifenômeno do corpo, isto é, ela é um produto secundário dos eventos fisiológicos que ocorrem em nós. Não pode ser reduzida ao corpo, é diferente dele. Mas não é diferente a ponto de ser independente, nem de influenciá-lo. Uma analogia comum é com a do apito do trem: o apito é resultado residual do funcionamento do trem. É inevitável que ocorra, pois é consequência da queima dos combustíveis e da liberação dos resíduos, mas o apito não causa nenhum efeito na própria locomotiva.

A mente seria também assim: quando tenho a vontade de mover meu braço, esse evento mental é resultado residual de um certo estado fisiológico. Chamemos esse estado de "A". Quando, na sequência, levanto meu braço, isso é resultado não do minha vontade, e sim do estado "A". 

Já que a vontade de levantar o braço vem logo antes do movimento em si, costumamos nos confundir e atribuímos à vontade (que é um evento mental) o papel de causa. É como se assinalássemos que o apito do trem causa seu movimento.

Simplificando: O estado fisiológico "A" causa minha vontade de levantar o braço, como também causa o meu levantar de braço. A vontade não causa nada.

Isso se aplicaria não só a movimentos simples, mas a todo e qualquer movimento voluntário que temos.

Mesmo ações muito complexas, seja se posicionar a respeito da descriminalização do aborto, seja se converter a uma religião, seja fazer voto de pobreza e permanecer anos vivendo de esmolas, seja votar no candidato A ou B para Presidente, seja preferir o socialismo ao liberalismo (ou vice-e-versa), seja praticar o veganismo: todos esses seriam fenômenos físico-químicos de causas também físico-químicas.

A mente, por sua vez, seria mero efeito residual do funcionamento do organismo.

O epifenomenalismo, à primeira vista, parece responder bem aos dois problemas que mencionamos: a experiência subjetiva manteria sua especificidade (ela não é a mesma coisa que o cérebro, mas causada por ele) e o problema do poder causal da mente sobre o corpo também seria neutralizado, visto que tal poder causal inexistiria.

Isso não impede, porém, que o epifenomenalismo tenha seus próprios problemas. Fica difícil, por exemplo, defender a existência do livre-arbítrio. Mas daí é papo pra outro dia, rs.

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