filosofia budista em nãgãrjuna

Uma das novidades filosóficas do séc. XX foi o existencialismo, visão na qual o ser humano não possui uma essência prévia, ou seja, rejeita-se a ideia de que possuímos uma natureza inescapável, da qual não poderíamos nos livrar mesmo com todo a vontade e esforço.

A condição humana seria a própria liberdade.

Claro, um existencialista não defende que podemos sair voando, se quisermos o suficiente. Ele se refere à liberdade com relação a nossas decisões dentro da factualidade. Por exemplo, se você disser que não pode ajudar alguém em perigo porque Deus ou sua genética o proíbe, o existencialista lhe acusará de má-fé: "você é que está decidindo não fazê-lo, a liberdade é sua condição inegável, pare de terceirizar sua responsabilidade".

Dessa forma, a realidade seria povoada por seres cuja condição é o nada (nós, no caso), no sentido de que não somos coisas determinadas, e sim perpétuos projetos de existência, algo como um movimento constante para fora.

Tudo isso é assunto bastante conhecido na filosofia ocidental.

Mas o curioso é descobrir que a ideia do sujeito como "nada", ou como vazio de essência, estava presente muito antes. Nãgãrjuna, filósofo indiano do séc. II, tinha por conceito-chave justamente a vacuidade.

Segundo ele, não apenas os seres humanos, mas tudo o que existe é vazio, no sentido de que não possui uma essência.

Dando melhor contexto: tradicionalmente, em filosofia, essência é uma coleção de propriedades ou atributos fixos pelos quais é possível identificar e distinguir coisas de forma definitiva.

Então, por exemplo, quando Aristóteles diz que o homem é um animal político, ou Hobbes diz que o homem é mau por natureza, ou Descartes diz que somos coisas pensantes, eles estariam assinalando essências. Por meio de tais atributos, seria possível identificar um ser humano, bem como distingui-lo de qualquer outra classe de ser.

A essência seria importante porque, por meio daquilo que é fixo é que poderíamos conhecer as coisas que compõem o mundo, e a justificação do conhecimento sempre foi uma das tarefas fundamentais e preferidas dos filósofos.

O discurso pretendente ao status de conhecimento é fixo. Se o conhecimento vivesse mudando, então ele nunca teria sido conhecimento para começo de conversa: assim pensava a maioria esmagadora dos filósofos europeus até o séc. XX. Então, para que um discurso fixo seja para todo o sempre verdadeiro, ele necessita se basear em uma realidade também fixa, imutável, eterna... daí a importância fundamental das essências.

Nãgãrjuna se opõe a essa tendência de pensamento e vem dizer que nada possui uma identidade fixa. Alguns apelidam filosofias como a dele de "filosofias do movimento", para diferenciá-las das chamadas "filosofias da identidade".

Mas como esse mundo sem essências funcionaria, exatamente? Bom, precisamos pra isso entender o conceito de co-originação dependente. Trata-se de uma concepção a respeito de causas e efeitos. Para Nãgãrjuna, a dualidade causa-efeito é ilusória, uma distorção conceitual da realidade.

Isso porque, para que haja causa e efeito, é preciso supor que a realidade é feita de coisas individuais, separadas e independentes. Tradicionalmente, quando busca-se pela causa de algo, busca-se não naquela mesma coisa, mas em outra. A gripe é causada por um vírus, a obra de arte é causada pelo artista, e a causa do movimento é uma força. Causa e efeito são, usualmente, coisas distintas.

Mas, para Nãgãrjuna, a realidade é coisa una e contínua, e a separação dela em entidades independentes é mera convenção intelectual, e não um retrato fidedigno de como as coisas efetivamente são. Para ele, cada ente (eu, você, o celular na sua mão etc.) somos uma e mesma coisa, e a ideia de que o mundo é povoado por pacotinhos separados, cada qual com sua essência fixa, é fruto de ilusão.

Isso tem uma consequência para o conhecimento: para bem compreendermos algo - a humanidade, por exemplo -, é preciso compreender todo o resto das coisas existentes. Conhecer não é isolar essências, mas integrar cada região da realidade num todo que se relaciona e se interdepende. Se algo, digamos o petróleo, deixasse de existir, a humanidade já não seria mais a mesma, pois a humanidade não é conhecível por atributos fixos, e sim pela sua relação com o todo, e se esse todo muda, então a humanidade também mudou.

Com isso, Nãgãrjuna não rejeita toda e qualquer distinção conceitual, até porque isso é inviável, mas nega qualquer uma que se pretenda definitivo retrato da realidade. A função do conhecimento discursivo é pedagógica, e não teórica.

Segundo o pensador indiano, não é que sua filosofia seja verdadeira e as demais, falsas. Para ele, não é possível capturar, com qualquer teoria, aquilo que é móvel. Seria como tirar uma foto de uma onça e querer que a foto expresse tudo o que há para se ver a respeito dela.

Ou seja, mesmo o princípio da co-originação dependente não é verdadeiro, ele apenas aponta para a realidade. O princípio coloca em termos lógicos aquilo que a lógica é, no fim das contas, incapaz de traduzir.

A filosofia aqui não estabelece uma relação de correspondência minuciosa com o real, sua finalidade é prática: a felicidade. A teoria não tem importância suprema, ela é meio para uma vida mais plena.

"Meu ensinamento é como um dedo apontado para a lua. Não confunda o dedo com a lua", teria dito o primeiro Buda.


Referências Bibliográficas

Bartz, M. O filosofar budista de Nãgãrjuna: a vacuidade como o caminho do meio entre o niilismo ontológico e o substancialismo ontológico. In: Revista Primordium, v. 3, n. 5, 2018.

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